Os objetos misteriosos

Uma das características principais do conto maravilhoso é a presença do “objeto mágico”, que permite ao herói realizar tarefas difíceis, senão impossíveis. Vladimir Propp dedica todo um capítulo do seu livro “As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso” ao que ele chama de “auxiliares mágicos”, mostrando que o conto atinge seu apogeu quando tais auxiliares – que podem ser animais ou objetos – são colocados à disposição do herói. As reminiscências me trazem a voz pausada de Severina de João Congo, uma das contadeiras de história da minha infância, que dizia: “Aí a velha entregou a Juvenal um fio do cabelo dela, um cabelo muito comprido, e disse que aquele cabelo tinha a força de mil correntes…”

São inúmeros os exemplos de objetos mágicos no conto maravilhoso. No folheto “História de João Moleque e a princesa Lindalva”, de João José da Silva, há uma touca mágica, presente de Nossa Senhora, que torna o herói invisível: “Quando chegou no jardim/ A mulher estava ainda/ Esperando a sua volta/ Com uma alegria infinda/ Ele chegou, ela deu-lhe/ Uma touca muito linda// E disse: esta touca tem/ Uma força benfazeja/ Pois ela em tua cabeça/ Não há diabo que te veja/ Pois ficarás invisível/ Vencerás qualquer peleja.”.

Já na história de “A Princesa Rosamunda ou a Morte do Gigante”, de José Pacheco, o gigante Aranol possui um espelho de prata que tem o poder de desencantar a princesa, transformada em pedra pelo poder da magia: “Sou eu, Aranol, o chefe/ E o que pretendes mais?/ Hidelbrando respondeu-lhe:/ És um gigante voraz/ Dá-me o espelho de prata/ Que desencanta os mortais.// Minha irmã, a princesinha/ Tão inocente e tão boa/ a bruxa Zoraina Preta/ Há dias petrificou-a/ Só o teu espelho faz/ Voltá-la à mesma pessoa.”

João Martins de Athayde refere-se a um anel que transporta a pessoa para qualquer lugar, em “Raquel e a fera Encantada”, que nada mais é do que mais uma versão do conto “A Bela e a Fera”: “Disse a voz: no travesseiro/ Encontrarás um anel/ Um objeto distinto/ Um amigo tão fiel/ Que livrará o teu pai/ Daquela morte cruel// Este anel é encantado/ A pessoa que tiver/ Com ele se livrará/ Dos obstáculos que houver/ Se transporta em dez minutos/ Para o local que quiser.”

Há um folheto onde esses objetos assumem condição de protagonistas: “Josimar e os 4 Objetos Misteriosos”, de Silvino Pereira da Silva. O herói, ao perseguir um veado com intenção de matá-lo, presencia a sua queda em um poço. Penalizado, resolve salvar o animal e deixá-lo livre. Este, em recompensa, lhe dá os quatro objetos que dão título à história. “Outra voz chegou e disse/ Ninguém mais lhe atrapalha/ Aqui quem chegar com fome/ Come muito e não trabalha/ Em paga do benefício/ Dou-te esta linda toalha// Josimar, esta toalha/ Pertence à alta magia/ Quando estiveres com fome/ Seja de noite ou de dia/ É bastante dizer: Põe-te/ Cheia de comedoria.”

E o folheto continua: “Apareceu outra voz/ Num som vibrante de moça/ Dizendo: Vós viverás/ Sem precisar fazer força/ Conduzindo com cuidado/ Esta linda e rica bolsa.// Ela é misteriosa/ E fará tua defesa/ No ato de precisão// Podes dizer com certeza/ Ó bolsa te enche para/ Acabar minha pobreza.// Assim outra voz lhe disse/ Recebes o meu conselho/ Aceitas esse objeto/ Um misterioso espelho/ É de grande utilidade/ Este belíssimo aparelho.// Sendo magnetizado/ Dos mais antigos sistemas/ Se vê as cenas dramáticas/ Das artistas de cinema/ Também vê-se a deusa Vênus/ Cantando lindos poemas.// Ele ouviu alguém dizer/ Josimar, a hora é esta/ Recebes esta rabeca/ Que faz parte da orquestra/ E prossigas na viagem/ Pois já terminou a festa.// Saibas que esta rabeca/ Tem o nome de vingança/ É um objeto mágico/ E de muita confiança/ Precisando tocar nela/ Quem estiver por perto dança.”

O conto maravilhoso, nas suas narrativas fantásticas e encantadoras, apresenta uma enorme variedade de objetos. Além dos já citados, há outros mais, uma infinidade deles. A pedra de fogo, que quando atritada “encandeia todo mundo” ou dela “surgem dez soldados armados até os dentes”. A varinha mágica, a bengala, o chicote, a espada, a água que devolve a vida e a luz dos olhos, a maçã envenenada, as botas de sete léguas, o porrete que sozinho luta e destrói os inimigos á força de pancadas, e… o pavão misterioso.

“O Pavão Misterioso”, folheto de cordel da autoria de José Camelo de Melo Rezende, é a história da Condessa Creuza, a moça mais bonita da Grécia, conservada pelo pai trancada desde a infância no mais alto quarto do sobrado.Uma vez no ano, a moça aparece por uma hora ao povo, que vem de longe, só para contemplar-lhe a beleza. Um retrato dela chega até a Turquia, onde mora Evangelista, que se apaixona pela bela figura da jovem. Dirigindo-se à Grécia, ele encomenda a um engenheiro um mecanismo alado – o Pavão Misterioso do título – a bordo do qual consegue chegar até o quarto da moça, raptando-a, depois de vários perigos e dificuldades.

“O Pavão Misterioso” é um folheto cujos “objetos misteriosos” possuem um quê de realidade, demonstrando uma vez mais que a magia é parceira e precursora da ciência. Na verdade, se pensarmos bem, o espelho de Josimar, “…magnetizado…(onde) se vê as cenas dramáticas das artistas de cinema…”, sendo inclusive chamado de “aparelho”, nada mais é do que as telas, monitores e écrans que estão presentes em nossa vida. N’O Pavão Misterioso está onipresente a tecnologia, a ciência, e uma exposição clara da mágica subjacente aos objetos. Pode-se dizer que, n’O Pavão, a Ciência assume o status da magia, realizando prodígios, apontando soluções, desenvolvendo estratégias.

O pavão do título não é a ave mágica e mítica que sai de dentro de um ovo para levar o herói no seu dorso até os confins do mundo. É nada mais do que um helicóptero, um aeroplano, que pousa e decola verticalmente. É inventado a pedido do herói pelo Dr. Edmundo, um “engenheiro profundo” que reside na “Rua dos Operários”. O poeta explica com riqueza de detalhes: “O grande artista Edmundo/ Desenhou nova invenção/ Fazendo um aeroplano/ De pequena dimensão/ Fabricado em alumínio/ Com importante armação.// Movido a motor elétrico/ Depósito de gasolina/ Com locomoção macia/ Que não fazia buzina/ A obra mais importante/ Que fez em sua oficina.// Tinha a cauda como leque/ As asas como um pavão/ Pescoço, cabeça e bico/ Alavanca, chave e botão/ Voava igualmente ao vento/ Para qualquer direção.” E é o próprio inventor, que não é um mágico ou uma bruxa, mas um inventor, um engenheiro, um artista, que termina a explicação: “Eu fiz um aeroplano/ Do formato de um pavão/ Que se arma e se desarma/ Comprimindo em um botão/ E carrega doze arrobas/ Três léguas acima do chão.” É o triunfo da técnica dando suporte às soluções miraculosas.

Além do pavão propriamente dito, há ainda no folheto a presença de uma serra, facilmente identificável com nossas atuais serras portáteis: “Edmundo ainda lhe deu/ Uma serra azougada/ Que serrava caibro e ripa/ Sem que fizesse zoada/ Tinha dentes de navalha/ De gume bem afiada.” Com ela, Evangelista, o herói, depois de aterrar silenciosamente com seu pavão-helicóptero na cumeeira do palácio do Conde, praticava uma abertura pela qual podia descer e contemplar a sua amada Creuza. Ao aparecer o feroz Conde, pai da moça, entrava em cena o outro objeto: “Deu-lhe um lenço enigmático/ Que quando Creuza gritava/ Chamando pelo pai dela/ Aí o moço passava/ Ele no nariz da moça / Com isso ela desmaiava!” Um lenço enigmático, meu caro leitor, que nada mais devia ser do que um lenço embebido em clorofórmio, anestésico e desmaiante.

Outras menções à tecnologia acontecem no folheto. Logo no início, a presença dos fotógrafos que se atropelam uns aos outros para tirar o retrato de Creuza e depois vendê-lo; a indelével “banha amarela” que a moça, meio a contragosto, mas obedecendo ao pai, passa na cabeça de Evangelista para que ele possa ser identificado depois; e mais detalhes do pavão: “Com pouco o conde acordou/ Viu a corda pendurada/ Na coberta do sobrado/ Distinguiu uma zoada/ E as lâmpadas do aparelho/ Mostrando luz variada.// E a gaita do pão/ Tocando com rouca voz…” As luzes, os faróis, e a buzina, ou a “gaita” do aparelho, em plena atividade, voando, elevando-se ao céu com o casal de amantes fugitivos. Até os aspectos técnicos da decolagem de um aparelho são mostrados, na visão dos soldados: “Os soldados da patrulha/ estavam de prontidão/ Um disse: Vem ver, Fulano/ Lá vai passando o pavão/ Veja como ele faz curva/ para tomar direção.” Finalmente, um telegrama substitui o “mensageiro” ou o “portador”, levando as notícias no final da história.

Vladimir Propp salienta que o uso do objeto mágico não diminui a glória do herói, sendo esse objeto a pura expressão de sua força e de seus talentos. Através deles, que são extensões dos sentidos e capacidades humanas, pode o herói conseguir seus objetivos, matar a fera e casar-se com a princesa, nessas histórias que encantaram nossa infância e que continuam encantando a vida adulta daqueles que mantêm a criança viva e brincante dentro de cada um.

Ítalo Calvino é quem afirma: “As fábulas são verdadeiras.” E continua: “São uma explicação geral da vida, nascida em tempos remotos e alimentada pela lenta ruminação das consciências camponesas até os nossos dias.” Os contos dão sentido às nossas experiências existenciais numa fase da vida em que não temos ainda o pensamento racional muito bem elaborado; eles nos fazem entender a dicotomia entre ricos e pobres, entre reis e vassalos, entre o amor e o sofrimento, entre a vida e a morte. E nos mostram, ainda segundo Calvino, “o esforço para libertar-se e autodeterminar-se como um dever elementar, junto ao de libertar os outros, ou melhor, não poder libertar-se sozinho, o libertar-se libertando.” Os contos são o “catálogo do destino” que pode caber a um homem e a uma mulher, entreabrindo o véu que recobre o mundo oculto e nos permitindo, mais do que qualquer outra coisa, vivenciar o mistério da nossa alma, reconhecer suas sombras e escuridões e integrá-las à luz, na busca da Paz e da Felicidade.

 

Como escolher um texto para encenar na escola?

Durante toda a minha experiência como professora de teatro sempre fui procurada por alunos ou ex-alunos que, atuando como professores na rede pública ou particular de ensino, me pediam sugestões sobre que texto deveriam montar nas escolas, principalmente quando o diretor pedia claramente um texto sobre “drogas” ou sobre “gravidez na adolescência”, por exemplo. Uma pergunta precede essa discussão da escolha do texto:

– O que quero dizer com o teatro, com esta arte que pratico?

Os motivos que levam uma pessoa a ser professor de teatro são diferentes daqueles que levaram outra pessoa a ser professor de matemática, por exemplo.

Mesmo aqueles que são professores de teatro “por acaso”, ou seja, porque o curso tinha mais vagas, ou porque terminou sendo a única opção, e nunca pararam para pensar nisso, durante o curso devem ter aprendido que a arte é um processo de comunicação, e é preciso obviamente ter algo a comunicar.

Então a pergunta que devemos estar diariamente nos fazendo é “o que quero dizer ao mundo?” como professor, como professor de arte, como artista, como cidadão e como ser humano.

Quais são os meus valores? Em que acredito? Por que estou metido no mundo do teatro? São perguntas que todo praticante da arte teatral precisa estar constantemente fazendo a si mesmo. E ao longo desta exposição expresso também meu pensamento sobre a arte teatral e sua função enquanto prática artística e estética, sobre a forma como eu a vejo, entendo e pratico, obviamente respeitando aqueles que a vêem, entendem e praticam de outra forma.

É preciso ter em mente que, da mesma forma que há muitos tipos de pessoas, diferentes umas das outras, e inseridas em contextos sociais diferentes, há muitos tipos de teatro. O teatro enquanto arte quase pura, de pesquisa da linguagem, onde brilham nomes como Peter Brook e Eugenio Barba, Antunes, Zé Celso, passando pelas comédias ligeiras com atores globais, os espetáculos para crianças sempre em cartaz nos teatros das cidades, os grupos universitários que pesquisam e criam tendências, os megaespetáculos como autos e celebrações comemorativas que agora estão disseminados por todas as cidades, até as representações dos pequenos circos do interior e o mamulengo, tão vivo nas mãos e falas dos nossos artistas populares.

Tudo isso é teatro, e cada um deles tem seu público, e cada um deles está inscrito em uma posição ao longo da extensa linha que liga a Arte e o Entretenimento, uns com mais arte, outros com mais entretenimento, mas todos igualmente válidos e possíveis.

Eu sempre trabalho mais na direção da Arte do que do entretenimento, mas nada me impede de trabalhar nesta última direção. Isso é bom, porque experimento de tudo e enriqueço minha prática.

Mas vamos voltar ao nosso tema principal, que é esse teatro que o diretor encomenda na escola ao professor de arte. Quero relatar três casos reais.

O primeiro: o padre, diretor de um colégio católico, chama o professor de teatro para fazer “uma peça” sobre gravidez na adolescência, mas recomenda expressamente que a questão sexual não deve de jeito nenhum ser abordada de forma explícita.

O segundo: assistentes sociais escrevem e dirigem uma peça sobre alcoolismo no serviço de prevenção de um grande hospital. Na peça, o personagem chega bêbado às três horas da manhã, e esbraveja contra a esposa, quebrando as coisas dentro de casa; uma vizinha é assistente social, entra na casa do casal às três da manhã, e faz uma preleção sobre as consequências do abuso do álcool, enquanto os outros personagens – o alcoólatra e a esposa – escutam, atentos.

O terceiro: uma peça, representada por crianças, apresentada num festival escolar. As crianças, no papel de árvores, são derrubadas sumariamente por outra criança, no papel de machado. Uma das árvores se adianta para os proscênio e diz: “Vamos salvar a natureza!” As outras árvores dizem: “Vamos!”, e partem para cima do “machado” e o expulsam do palco. Depois, juntos, cantam uma canção.

Tudo isso é uma pequena amostra do que tem sido feito por aí em nome do teatro nas escolas ou nas instituições.

Peço que façam comigo uma pequena reflexão sobre esse tipo de peça que traz uma “mensagem”. Essas peças procuram responder a uma questão, que é “como podemos curar/evitar/prevenir/eliminar as drogas/alcoolismo/gravidez/na-adolescência/abuso-infantil/destruição-da-natureza/efeito-estufa?

Essas peças geralmente mostram uma situação que enfoca o problema e levam o espectador a assumir uma atitude benevolente diante do problema, dizendo consigo mesmo: “Se eu estivesse nessa situação que estou vendo no palco, eu faria a escolha correta!” e quando há no palco o triunfo ou o fracasso do protagonista, o espectador diz, em tom superior: “Eu sabia que ele ia terminar assim!”

Na minha maneira de ver, essas peças, conduzidas desta forma são, em última análise, um processo de infantilização e manipulação do público. O autor/diretor se sente moralmente superior à plateia e – muito mais grave – permite que a plateia assuma uma superioridade moral para com as pessoas na peça que não aceitam os pontos de vista ali colocados como corretos.

Tal atitude afasta da atividade exatamente os alunos que estariam, digamos assim, em situação de risco, que seriam os alvos da ação educativa. Imagine comigo que você é um garoto de 13 anos, sedento de experiências, curioso de sexo e drogas. Obviamente não vai lhe interessar qualquer atividade que diga que você não pode ou não deve ter essas experiências.

As peças de mensagem, nesta análise, não atingem, por isso, os seus objetivos, pois contêm julgamentos e explicações, e quando você explica, ou julga, não está fazendo teatro. Está fazendo política, praticando a moral, ou divulgando a ciência. Mas não está fazendo teatro. Teatro é Arte, e Arte é feita de alegorias, simbologias, metáforas. Sem isso, é discurso, é proselitismo e – pior de tudo – é chato.

Essas peças são empobrecedoras do espírito, porque não dão opção à plateia. Nada resta ao público a não ser concordar com o castigo ou com a redenção do protagonista, contrariando um dos pressupostos básicos do teatro que é atingir a consciência, FAZENDO PENSAR.

Então, o que fazer para combater as drogas, a violência, a gravidez na adolescência, a destruição da natureza e todas essas questões que são importantes, que permeiam nosso cotidiano e a respeito das quais é fundamental que os jovens fiquem atentos?

Há muitas coisas que podem ser feitas, sem precisar envolver o teatro nisso. Vou citar algumas que me ocorreram aqui rapidamente, mas vocês provavelmente conseguirão imaginar muitas outras. Levem os meninos ao hospital psiquiátrico e à prisão, para que eles vejam onde vão parar os que se drogam. Levem-nos aos programas de apoio às mães adolescentes que há em toda a cidade, e deixem que eles escutem os depoimentos dessas mães e pais de 14 anos de idade. Levem-nos ao Pronto Socorro, para que vejam as vítimas da violência, gritando de dor, ou mortas na guerra das cidades.

E não precisam dizer nada, pois o que esses jovens vão ver, de verdade, na frente deles, é mais contundente do que qualquer peça de teatro. E ensinem aos meninos caridade e compaixão com os que sofrem e se drogam, e cometem crimes, porque eles também são humanos e não cabe a nenhum de nós julgá-los nem sentir-se superior a eles.

E o teatro? Se optarmos por não realizar a tal “peça de mensagem”, o que vamos montar com nossos alunos?

Na escola, vamos nos juntar e explorar com eles a grande aventura do espírito humano, os mistérios, os problemas da alma! Vamos esquecer as calamidades do cotidiano e vamos nos reunir em torno do amor, da paixão, da ambição, da amizade, do sacrifício, da fantasia – e da morte também pois ela faz parte da vida!

Eu acredito que o caminho para atingir o coração dos homens é confrontá-los com a sua própria humanidade, mas de forma poética, respeitosa e amorosa. É preciso trazer à tona o mistério, mas sem desvendá-lo. E o espectador tem que levar o mistério consigo e ir desvendando-o na sequência. Em vez do dedo em riste, em vez da lição de moral, da sentença educativa, da frase edificante, é melhor e mais honesto contar uma história…

– Mas eu não vou lidar com homens, dirá você, jovem professor de teatro, ou o diretor preocupado de uma escola da periferia. São apenas crianças, adolescentes, carentes, em situação de risco.

E eu lhe respondo:

– Não, não, não! São homens e mulheres, sim! Cidadãos como eu e você, seres humanos em toda a sua plenitude. Tratá-los de outra forma é infantilizá-los, manipulá-los, considerá-los seres inferiores, privados da capacidade de entender as coisas, como bem pouco tempo atrás se fazia com as mulheres!

Com esses homens e mulheres em formação, vamos fazer o melhor que podemos fazer com o teatro. Os clássicos, as histórias eternas da humanidade, e a memória cultural da nossa região.

Vamos montar Shakespeare, por que não? Não o texto integral, mas os enredos, as histórias: a história do amor proibido de Romeu e Julieta, da ambição de Macbeth, do sofrimento existencial de Hamlet, das incertezas do amor em Sonho de Uma Noite de Verão, e da esperteza em O mercador de Veneza, do ciúme de Otelo. Essas histórias são eternas e seus protagonistas não são reis ou príncipes, mas homens e mulheres iguais a qualquer um de nós.

Vamos montar outros clássicos, como suas histórias imortais: a avareza e cobiça, em O avarento e a hipocrisia, em O tartufo, de Moliére; a corrupção n’O Inspetor geral, de Gogol, a incapacidade do homem em fugir ao seu destino no Édipo Rei, de Sófocles, a incomunicabilidade entre as pessoas n’A Cantora Careca, de Ionesco. Vamos montar Brecht, cujo teatro intensamente poético abre espaço para a reflexão e a discussão através do mecanismo do distanciamento.

Vamos montar autores brasileiros, como Martins Pena, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Dias Gomes, Millor Fernandes.

Vamos montar os autores nordestinos: Ariano Suassuna, Paulo Pontes, Altimar Pimentel, Braulio Tavares, Lourdes Ramalho, Racine Santos.

E se nada disso bastar, ou for suficiente, temos ainda o universo inesgotável do romanceiro popular nordestino, dos folhetos da literatura de cordel, com suas histórias imorredouras; O Pavão Misterioso, O Cachorro dos Mortos, A Louca do Jardim, Juvenal e o Dragão, ou A História do Marido que Trocou a Mulher por uma Televisão a Cores.

O que funciona como prevenção à droga, à violência, ao abuso, na escola, é o teatro não na sua temática, mas na função agregadora e coletiva do fazer teatral propriamente dito, dando noção de objetivo, organização do tempo, horários, disciplina, sentido de grupo, de construção coletiva, elevação da autoestima, liberação da fantasia. Tudo isso que o teatro proporciona deve ser mais vantajoso para o jovem do que a lição de moral proposta pela peça de mensagem.

O teatro, minha gente, na escola, ou seja onde for, não é para ensinar nada a ninguém. O teatro é para levantar o véu que separa o visível do invisível que há em todos nós. O teatro é para fazer sonhar, instigar, emocionar, comover, fazer com que nos aproximemos, cada um, da nossa própria humanidade.

 

Clotilde Tavares

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Este artigo foi escrito em 2008 e publicado no blog Teatro Vivo <http://teatrovivo.wordpress.com>

Os sussurros das mulheres

“Porque há uma história que não está na história e que só se pode resgatar apurando o ouvido e escutando os sussurros das mulheres.”

Rosa Montero

 

Gosto muito do livro da escritora espanhola Rosa Montero “Histórias de Mulheres”. Para você, que talvez nunca tenha ouvido falar desta autora, saiba que ela é uma das mais importantes escritoras de língua latina da atualidade, com inúmeros romances publicados e livros onde aborda assuntos diversos, que fazem link com os artigos que ela publica semanalmente na edição espanhola do jornal El País, do qual é colunista desde 1976. Um dos seus mais conhecidos livros é “A Louca da Casa”, um texto bem-humorado sobre o que é ser escritor e ser leitor, com referências a livros que ela leu e que recomenda pelos mais variados motivos. A “louca” do título é a imaginação: sem ela fica impossível escrever, e muito mais difícil ainda o simples ato de viver.

Rosa Montero

 

 

 

Mas eu quero mesmo é falar desse livro “História de Mulheres” (Rio de janeiro, Agir, 2008. 223 p.) Depois de uma introdução gloriosa, onde Montero passeia pela história da Literatura e da Arte pontuando as mulheres que se distinguiram nesses campos, revela a sua paixão pela biografia, a origem deste livro, nascido de artigos que ela publicou na sua coluna em El País. São 15 perfis femininos, escolhidos pelo critério de predileção da autora, e incluem Agatha Christie, Alma Mahler, Camille Claudel, Frida Kahlo e outras menos conhecidas como Laura Riding e Isabelle Eberhardt.

Algumas dessas histórias são verdadeiramente espantosas, principalmente aquelas que tratam de mulheres escritoras. Motivada por elas, fui em busca de outras. Descobri que muitas dessas mulheres foram silenciadas pela história ou se travestiram em uma roupagem masculina para poderem ser ouvidas. Entendemos então como inúmeras mulheres talentosas e cheias de espírito tiveram a sua voz calada por uma sociedade preconceituosa e sexista, onde imperava a ideia, expressa pelo filósofo Kant, citado por Jair Barboza, de que…

“… estudos laboriosos e reflexão penosa, mesmo que uma mulher aí contribua com algo elevado, anulam as vantagens próprias do seu sexo, e, ainda que possam ser objeto de uma fria admiração, pela raridade do acontecido, ainda assim ao mesmo tempo enfraquecem aquilo que há nela de atraente e com o qual exerce seu grande poder sobre o homem. Numa mulher com a cabeça cheia de grego, como a senhora Dacier, ou que entra em disputas radicais sobre mecânica, como a marquesa de Châtelet, só falta mesmo uma barba, pois esta talvez exprimisse mais claramente os ares de profundidade à qual aspiram.” (Os grifos são meus).

Uma das mulheres citadas por Rosa Montero é Alma Mahler. Bela, talentosa, pianista estupenda, compositora, aos 21 anos se apaixonou por Gustav Mahler, diretor da Ópera de Viena com o dobro da sua idade. Casaram-se em seguida, mas o preço que Alma precisou pagar foi alto: em uma carta abjeta, o futuro marido zombava da sua inteligência e do seu talento, exigindo que ela renunciasse à música. E completava: “Você deve ter uma só profissão: a de me fazer feliz.” Ela atendeu a essas absurdas exigências e entre sofrimento e depressão aguentou dez anos, quando conheceu e se apaixonou por z, arquiteto e fundador da Bauhaus. Gustav arrependeu-se, mas era tarde demais, e Alma não voltou para ele. Os dez anos em que ficou afastada da música pelo casamento não puderam ser recuperados e sua carreira como pianista foi encerrada. Mas teve amores, maridos e amantes, e afirmou com coragem seus desejos e sua personalidade até morrer, com 85 anos de idade.

Mas eu quero falar sobre as escritoras, principalmente sobre aquelas que, por um motivo ou outro, tiveram que se tornar invisíveis para poderem ser aceitas. E olhe que eu nem quero tocar nesse imenso contingente de mulheres que deram suporte logístico, doméstico, emocional e até financeiro para que seus maridos ou companheiros pudessem escrever sem se preocupar com as responsabilidades do lar e da família, este inumerável exército de abnegadas criaturas que, segundo o ditado popular, constitui aquela categoria de “grandes mulheres” que está sempre atrás daqueles ditos “grande homens”, que não precisaram lavar, cozinhar, passar, parir, amamentar, administrar e muitas vezes colocar o pão na mesa.

Vou ficar aqui com dois tipos de situação.

 

MULHERES QUE SE VALERAM – OU SE VALEM – DO PSEUDÔNIMO MASCULINO

No século XIX tornou-se habitual a mulher esconder-se atrás de um nome masculino para que a obra fosse aceita e considerada. Mulheres com dotes intelectuais não eram bem vistas. E havia o preconceito dos leitores, o que levava os editores a aceitarem com reservas as obras escritas por mulheres ou, simplesmente, recusá-las.

George Sand

Talvez uma das mais famosas mulheres “com nome de homem” desse período tenha sido George Sand, nascida na França em 1804, cujo nome verdadeiro era Aurore Dupin. Vestia-se de homem porque achava o traje masculino mais cômodo e mais de acordo com a sua predileção pela vida boêmia. Frequentava o bas-fond, as buates, além de beber e fumar em público, protegida pelo traje. Todos a sabiam mulher e a aceitavam como tal, tendo ela mantido tórridos romances com homens famosos na época, como Frédéric Chopin, Alfred de Musset, Prosper Merimée e outros. Curioso é que os leitores sabiam que ela era mulher, mas o mundo era tão sexista que exigia a manutenção da farsa, do pseudônimo masculino, para ter as obras aceitas no meio literário.

Desse grupo também era Isabelle Eberhardt, nascida em 1877, que foi criada como menino pelos pais. Ao ficar adulta, adotou diversos pseudônimos masculinos, entre os quais Nicolas Podolinsky e Si Mahmoud Saadi. Fazia-se passar por homem, viajando sozinha, a cavalo, percorrendo a Tunísia, a Argélia e o deserto do Saara. Bebia muito, fumava maconha e frequentava bordéis. Escreveu diários, onde relata suas experiências. Dizia:

“…Com as roupas de uma moça europeia, nunca teria visto nada. O mundo estaria fechado para mim, porque a vida exterior parece ter sido feita para o homem e não para a mulher. (…) Esta é a minha vida real, a vida de uma alma aventureira, livre de mil pequenas tiranias, daquilo que se chama os costumes, o “patrimônio”, e ávida de grandes espaços abertos, e de uma vida variada e livre.” (Do blog 360Meridianos)

E o que dizer de George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, nascida em 1819, romancista britânica que usava o pseudônimo masculino para que seus trabalhos fossem levados a sério? Eliot queria escapar de estereótipos que ditavam que mulheres só escreviam romances leves e diz-se também que, oculta sob o nome de homem, desejava preservar sua vida íntima, sobretudo seu relacionamento com George Henry Lewes, um homem casado, com quem viveu por mais de vinte anos.

Irmãs Brönte

Ainda na Inglaterra, as irmãs Brontë, de fama mundial e bem mais conhecidas, também usaram “noms de plume” masculinos.  Anne, Emily e Charlotte eram filhas de um pastor evangélico em Yorkshire, no norte da Inglaterra. O pai as estimulava na leitura e com elas discutia temas da atualidade, além de permitir-lhes a prática da escrita. As jovens escreviam histórias de fantasia para elas mesmas, à mão, num mundo imaginário cheio de ilusão e encantamento.

Aos vinte anos, Charlote enviou uns versos a um poeta conhecido, e ele respondeu que os versos eram bons mas que a literatura não deveria ser o objetivo da vida de uma mulher. Mesmo assim, persistiram na escrita e, em 1847, Charlotte escreveu “Jane Eyre”, Emily escreveu “O Morro dos Ventos Uivantes”, e Anne “Agney Grey”. Tinham, respectivamente, 31, 29 e 27 anos de idade. Mas não assinaram as próprias obras. Usaram os pseudônimos masculinos de Currer, Ellis e Acton Bell. Nem o editor sabia que eram mulheres. Os livros fizeram sucesso e só então elas revelaram ao pai a autoria das obras. Os críticos, sem saber que que por trás das assinaturas masculinas estavam três jovens provincianas, virgens e pobres, fizeram considerações que jamais fariam se soubessem que era obra feminina. A propósito de “Jane Eyre”, escreveu um deles que a obra era cheia de “rudeza masculina, grosseria e liberdade de expressão”. E “O Morro dos Ventos Uivantes” foi considerado “selvagem, brutal e odioso.”

As moças pouco puderam desfrutar do sucesso e ampliar sua produção. Tuberculosas, Emily e Anne faleceram quatro anos depois da publicação de seus únicos livros. Charlotte ainda casou-se, publicou mais dois livros e morreu poucos anos depois, aos 39 anos.

No Brasil, um caso sui-generis. Em 1938 foi publicado o primeiro folheto de cordel escrito por uma mulher. Filha do conhecido poeta e editor Francisco das Chagas Batista, Maria das Neves Batista Pimentel, casada com Altino de Alencar Pimentel, era poeta, e das boas. Publicou o folheto “O violino do diabo ou o valor da honestidade”, mas assinou com um pseudônimo masculino, baseado no nome do marido: Altino Alagoano. Ela mesma explica o motivo, em depoimento colhido pela pesquisadora Maristela Barbosa de Mendonça para sua dissertação de mestrado:

“Todos os folhetos que foram vendidos na Livraria de meu pai ou que foram impressos, tinham nome de homem, eram homens que faziam, não existia naquele tempo folheto feito por mulher, e eu, para que não fosse a única, né?, meu nome aparecesse no folheto, não fosse eu a única, então eu disse: – Eu não vou botar meu nome. Aí meu marido disse: – Coloque Altino Alagoano.”

 

E AS MULHERES QUE ESCREVERAM E OS MARIDOS ASSINARAM?

Recentemente, dois filmes em cartaz retrataram uma situação diferente da citada acima, quando a mulher se esconde atrás de uma identidade masculina fictícia por ela fabricada. Nos casos a seguir, a mulher escreve, mas quem assina é o marido ou companheiro. Além de assinar, também recebe os direitos autorais, os lucros e a fama das obras.

O primeiro desses filmes é “A Esposa”, do diretor Björn Runge, com uma interpretação correta e emocionante de Glenn Close no papel da mulher “por trás” do escritor premiado com o Nobel de Literatura. O filme é recente e não quero incorrer na prática do spoiler. A história é ficcional, mas poderia ser verdadeira, como é verdadeira a vida da escritora francesa Colette, retratada também em filme que esteve há pouco em cartaz, dirigido por Wash Westmoreland.

A história de Colette é exemplar. Moça simples, do interior, casada com Willy, um homem mais velho e mundano, viveram na Paris de 1890. Frequentavam as rodas literárias e boêmias da cidade mas Willy vivia afogado em dívidas, e sugeriu à esposa que escrevesse algo para publicação. Ela criou então um personagem, Claudine, uma menina do interior que, na primeira pessoa, falava sobre seus sonhos, suas interrogações, suas perplexidades. O livro tornou-se um best-seller no país, mas foi Willy quem o assinou e, por esse motivo, acabou por se tornar uma celebridade.

Colette escreveu ainda algumas continuações da vida da fictícia Claudine, mas começou a ficar constrangida e incomodada com a falta de reconhecimento pelo seu trabalho. O marido lhe negava o direito à autoria e somente depois de muitas brigas é que ela conseguiu ganhar na justiça os direitos de propriedade intelectual, depois de ser explorada durante anos.

Ainda no livro de Rosa Montero “Histórias de Mulheres” há um caso que considero muito mais absurdo do que o de Colette. Refiro-me à escritora María de la O Lejáraga García, nascida na Espanha em 1874, também conhecida como, como passou a chamar-se depois do casamento com Gregorio Martínez Sierra.

María Martínez Sierra

Ainda jovem, María publicou seu primeiro livro, que não teve nenhum estímulo e só gerou reações desagradáveis na família e no pequeno círculo de amigos. Sendo assim, de moto próprio, passou a atribuir a autoria das obras ao marido, que não tinha qualquer talento literário e recebia esse favor da mulher como se aquilo fosse uma “obrigação” a ele devida pelo vínculo do casamento. María era professora e ensinava o dia inteiro. Gregorio não trabalhava e ela, depois de chegar da escola, cuidava das tarefas domésticas e atravessava a noite escrevendo incansavelmente, pois o marido a tratava como uma máquina de fabricar textos. Romances, obras teatrais, artigos variados, eram por ela produzidos em quantidade pois o que faltava a Gregorio em talento literário sobrava em tino comercial. Ele montou uma companhia de teatro, revistas culturais e depois a famosa editora espanhola Renacimiento. Mas era María quem escrevia uma peça atrás da outra, artigos opinativos, crônicas, além de fazer todo o trabalho da editora: receber os textos, editar, corrigir as provas tipográficas e cuidar da contabilidade.

Em 1906 o marido tornou-se amante da primeira atriz da companhia que, ironicamente, dependia dos textos teatrais de María para obter sucesso. Essa situação perdurou até 1922 quando ela separou-se dele e foi para a França, mas continuou produzindo textos para o marido. Apesar do nome de Gregorio continuar na autoria das obras, as pesquisas recentes mostram que ele pouco ou nada contribuiu para aqueles escritos.

Isso hoje nos soa tão ridículo, e nos perguntamos como essa mulher se deixou anular dessa forma. Como ela pode ter deixado isso acontecer? Ao contrário de Alma Mahler, que embora tendo perdido sua carreira musical retomou sua autonomia e viveu novos amores, Maria passou a vida sendo escrava do marido. Ela mesmo se justifica dizendo que tinha certeza de que a sua produção, sendo assinada por um homem, teria mais condição de ser levada a sério.

Essa reação é fácil de compreender quando entendemos que a sociedade da Espanha no início do século XX era tão conservadora que uma revista católica se posicionou violentamente contra um simples clube de mulheres, que se reuniam para tomar chá e eventualmente assistir a uma palestra cultural. A revista publicou:

“A sociedade faria muito bem enclausurando-as como loucas e criminosas. O ambiente moral da rua e da família ganharia muito com a hospitalização ou o confinamento dessas fêmeas excêntricas e desequilibradas.”

Durante muito tempo, María escreveu e Gregório ganhou a fama, inclusive não repassando a parcela dos direitos autorais que a ela cabia, lançando-a na miséria e forçando-a a viver da caridade dos amigos. Depois que ele morreu, ela ainda teve que dividir os direitos autorais com a filha que ele teve com a amante. Em 1950, María publicou duas obras autobiográficas onde revelava esses fatos mas foi duramente atacada por escritores de todo o mundo, que condenaram suas “pretensões literárias”. Somente nas últimas décadas os estudos e pesquisas revelaram que sim, que Maria era na verdade a autora da vasta obra de Gregório.

Penso que uma situação dessas tem base nos ideais de amor romântico, de sacrifício, de entrega, do papel idealizado da mulher como transformadora e redentora. O sexismo reinante a partir do século XVIII e que se exacerba nos anos 1900 indo até meados do século XX, considerando o papel sempre subalterno da mulher, termina por empurrá-la para uma situação que se constitui aos poucos, de escrever para alguém ou por alguém, que geralmente é marido ou companheiro, que assina as obras como se de sua autoria fossem. É uma relação abusiva, de dominação, e se processa de tal forma que o homem passa a usufruir daquilo como um serviço inerente às obrigações matrimoniais que competem à mulher, como o cuidado com a casa, com os filhos e a disponibilidade eterna para o sexo.

Daí é que Virginia Woolf afirma, no seu livro “Um teto todo seu”, que uma mulher só pode escrever com independência se ela pagar o próprio aluguel, se ela tiver “um teto todo seu”.

E olhe que fiquei somente no campo da Literatura. Imagine em outras áreas, meu caro leitor.

 

TAMBÉM NA CIÊNCIA

Na Ciência, o trabalho da mulher é muito menos reconhecido do que o do homem, e poucas são ganhadoras de prêmios famosos. A mulher detém apenas 5% de todos os prêmios NObel concedidos até hoje.

Lembremos então de Hipatia, que viveu no século IV e que deu significante contribuição à geometria, à álgebra e à astronomia. Foi morta por um grupo de cristãos, acusada de heresia. Maria Kirch descobriu um cometa em 1702, mas passou a vida como ajudante, sempre à sombra do marido e depois do filho. Ada Lovelace, filha do poeta Lord Byron, criou o que chamamos de programação informática, mas quem ficou famoso foi Charles Babbage, que é considerado o precursor do computador, baseado em conceito desenvolvido por Ada. Mina Fleming entrou para o Harvard College Observatory como empregada do professor E. C. Pickering e acabou catalogando mais de 10.000 estrelas e descobrindo 10 novas, 52 nebulosas e 310 estrelas variáveis. Adivinhem quem levou a fama. Nesse mesmo centro, o já mencionado Pickering contratou Henrietta Swan Leavitt também para catalogar estrelas mas a cientista encontrou um elemento-chave para determinar a distância entre as elas, fundamental anos depois para descobrir como o Universo se expande. Emmy Noether demonstrou uma teoria da física de partículas e teve um papel essencial no campo da álgebra abstrata, mas trabalhou durante 25 anos sem receber salário. Rosalind Franklin, artífice da imagem que mostra a estrutura helicoidal do DNA, teve seus dados “roubados”. Estes serviram para que Watson e Crick recebessem o Nobel de 1962 por sua contribuição para o entendimento da estrutura da famosa molécula.

Rosalind Franklin

O professor Sergio Erill, em cujo trabalho pesquei as referências acima, empreendeu a tarefa de jogar luz sobre o trabalho dessas mulheres e dar-lhes o devido lugar no mundo da ciência. No seu livro “A ciência oculta”, editado pela Fundação Dr. Antonio Esteve, da Espanha, o professor examina o papel de 14 grandes pesquisadoras que ficaram relegadas a segundo plano – ou ao mais miserável anonimato –, apesar de sua grande contribuição para a ciência.

São casos inúmeros e variados, em todos os campos do conhecimento humano e na vida da sociedade, onde a mulher vive lutando para conseguir seu espaço. Aqui estou apenas tocando de leve na ponta exposta deste iceberg de mulheres ocultas por pseudônimos de homem, ou escrevendo para o homem assinar, ou sem ter seu nome reconhecido em conquistas científicas.

Quando já estou chegando no final ainda me lembro de J.K.Rowling, criadora do universo Harry Potter, ocultando-se atrás das iniciais porque os editores assim acharam mais conveniente.  E mesmo nesses tempos de empoderamento feminino as meninas ainda precisam usar pseudônimos masculinos nos jogos de computador disputados on line para se protegerem de agressões e bullying.

A luta continua. Ainda há um longo caminho a percorrer na busca do reconhecimento. Hoje estamos deixando de sussurrar para falar, falar muito e escrever, escrever, escrever, como defende a escritora Micheliny “Onça” Verunschk, neste trecho:

escrever / escrever/ escrever/ escrever como quem desatina/ um outro ciclo / uma outra lua /uma outra língua / e voltar para o mesmo sempre início / precipício / escrever como quem constrói um labirinto

Começando pelas coisas primeiras

Sobre o livro Poética, de Aristóteles.

Este é o primeiro parágrafo da Poética:

“Falemos da poesia  dela mesma e das suas espécies, da efetividade de cada uma delas, da composição que se deve dar aos mitos, se quisermos que o poema resulte perfeito, e, ainda, de quantos e quais os elementos de cada espécie e, semelhantemente, de tudo quanto pertence a esta indagação  começando, como é natural, pelas coisas primeiras.”

Vejam a simplicidade: se você eliminar o que tem entre os travessões, o que você vai ter?

“Falemos da poesia começando, como é natural, pelas coisas primeiras.”

Isso é o objetivo do livro, condensado em uma frase simples, com a beleza de “começar pelas coisas primeiras”, que dá todo o sentido à prática da compreensão de qualquer tema.

O que há entre os travessões pode ser enumerado em tópicos, que são os tópicos que ele vai desenvolver no trabalho. Quer ver?

“dela mesma e das suas espécies, da efetividade de cada uma delas, da composição que se deve dar aos mitos, se quisermos que o poema resulte perfeito, e, ainda, de quantos e quais os elementos de cada espécie e, semelhantemente, de tudo quanto pertence a esta indagação”

  1. dela mesma e
  2. das suas espécies,
  3. da efetividade de cada uma delas,
  4. da composição que se deve dar aos mitos, se quisermos que o poema resulte perfeito, e, ainda,
  5. de quantos e quais os elementos de cada espécie e, semelhantemente,
  6. de tudo quanto pertence a esta indagação

Então, a leitura fica fácil quando perdemos o medo de “não entender”. Só aqueles experientes entendem da primeira vez.

Sentiu alguma dificuldade? Leia em voz alta. As palavras adquirem sentido, forma, som e cor. Cuidado com a pontuação: vírgula é uma pausa curta e, depois dela, sempre vem mais alguma coisa. O ponto fecha a ideia.

Este texto se destina às pessoas que estão inscritos no Grupo Teatro Grego. Mas se você leu e gostou, considere se inscrever no curso que começa dia 15 de agosto. Informações no link http://sympla.com/casadaribeira