Shakespeare e a cultura popular

por Clotilde Tavares

Um dia desses, num show de humor, ouvi uma comediante dizer: “Clássico é aquilo que, mesmo passados 50 anos, ainda desperta o interesse.” E continuava: “Eu sou um clássico, uma vez que já passei dos cinqüenta e o meu marido ainda tem interesse por mim.” Piadas à parte, uma obra clássica pode ser definida por essa qualidade de resistir ao tempo, de não se consumir na fogueira dos modismos, de atravessar gerações. Clássica é a obra que, sempre que a revisitamos, descobrimos algo novo, algo que acrescenta algum pequeno lampejo à luminosa construção da idéias humanas.

Clássico entre os clássicos, William Shakespeare é um dos nomes mais conhecidos na literatura do mundo inteiro, embora já se tenham passados mais de quatrocentos anos da sua morte. Nascido em 1564 na pequena Stratford-on-Avon, em 1592 já se encontrava em Londres, trabalhando no teatro. Naquela época, uma companhia de teatro era formada por cerca de oito homens, e dois ou três rapazinhos aprendizes – que faziam os papéis femininos pois era proibido às mulheres trabalharem nas peças. Esses homens eram atores, produtores, autores e empresários do ramo, que encaravam o negócio do fazer teatral com seriedade, uma vez que ali investiam o seu capital, arcando igualmente com lucros e prejuízos.

Desde 1567 a profissão de ator havia sido reconhecida como legal na Inglaterra de Elizabeth I; mas era preciso que as companhias se colocassem sob a proteção de algum nobre, para que pudessem existir oficialmente. Em 1594 já encontramos William Shakespeare e seu grupo sob a proteção do Lorde Camareiro da Rainha, com um produção de às vezes até dois espetáculos por ano, sendo que em 1599 inaugura seu próprio teatro, o Globe Theatre, na margem esquerda do Tâmisa, em Londres.

Para quem representava? Para todos. Embora suas peças versem aparentemente sobre reis, nobres e a vida na corte, seus personagens são basicamente seres humanos que eventualmente ocupam posição de reis e nobres, ricos de tal profundidade psicológica que o crítico Harold Bloom afrma que é de William Shakespeare a “invenção do humano”, ou seja, da personalidade humana como hoje a concebemos e experimentamos. Talvez seja essa característica aquela que mais contribuiu para que hoje, depois de tantos séculos, o autor ainda seja lido e comentado, o que gera por ano cerca de cinco mil publicações tendo como tema sua obra. Além da riqueza de seus personagens, da sua espantosa capacidade de observação da realidade, do uso seguro da carpintaria dramatúrgica, do domínio sobre o idioma inglês – idioma que ajudou a consolidar e estabelecer -, da produção constante de peças que somaram trinta e oito até 1612, quando desistiu do teatro e voltou de Londres para Stratford onde morreria quatro anos depois, um dos aspectos da obra shakespeariana é a presença do popular e do folclórico. Em todas as suas peças é possível encontrar tanto personagens como referências diversas à cultura popular, tornando-as muitas vezes fonte de pesquisa etnográfica sobre a vida das camadas populares da época.

Criaturas como Bottom (“Sonho de Uma Noite de verão”), Falstaff (“Henrique IV”), a Ama (“Romeu e Julieta”), o criado Lance e seu cão Crab (“Dois Cavaleiros de Verona”), o Primeiro Coveiro (“Hamlet”), somente para citar alguns, são legítimos representantes da alma popular, com seus ditos que beiram a grosseria e a vulgaridade, sua verve, suas piadas, sua maneira de falar, seus trocadilhos, sua forma de ver o mundo, sua concepção do universo. Nas tardes elisabetanas, quando o Globe Theatre se encontrava repleto para as representações, que iam das duas às cinco e meia da tarde, a nobreza se acomodava nas galerias mas quem ficava mais próximo dos atores era o povo, de pé, com sua alegria ruidosa, suas cebolas fritas e sua cerveja, suas pêras e maçãs ao redor do palco que se projetava por entre a platéia.

As mulheres amamentavam os filhos enquanto presenciavam o espetáculo, e o tema haveria forçosamente que ser atraente senão cascas de fruta e bagaços de laranja eram atirados sobre o palco, embalados por vaias, assovios e zombarias. Era um verdadeiro “tour de force” prender a atenção de público tão variado e múltiplo nos seus interesses. Os dramaturgos elisabetanos, dos quais Shakespeare foi o mais brilhante, usavam de todos os recursos para conseguir tal feito.

Assim é que, nas suas peças, vemos representados muitos dos elementos do folclore e da cultura popular inglesa que, levados à cena, encontravam imediato eco na alma do povo. Sempre existem criados, amas, artesões, operários, soldados, gente do povo, que fala e reflete a vida de uma classe social específica daquela época. Isso vale para a maiorias da obras de Shakespeare, mesmo para as suas peças históricas, que tratam exclusivamente da vida dos reis ingleses.

Em “Hamlet”, a fala de Ofélia na Cena 5 do Ato IV, quando ela entra, já louca e oferece flores e ervas aos circunstantes, a descrição que faz das ervas e das suas indicações, misturadas com cantos e versos do folclore é um demonstração disso. “Aqui está rosmaninho, para lembrança. Não te esqueças de mim, querido. Estes amores-perfeitos são para o pensamento.(…) Para vós, funcho e aquiléia; arruda para vós, e um pouco para mim, também. Poderemos chamar-lhe erva da graça dos domingos, mas a vossa deverá ser usada de outro jeito. Aqui está a margarida. Quisera dar-vos algumas violetas, mas murcharam todas, quando meu pai morreu…”

Mercuccio, em “Romeu e Julieta”, desfere um discurso eletrizante sobre a Rainha Mab. Esta personagem é também inspirada no folclore, sendo uma deusa feminina que embriaga os homens com seu vinho encantado. Na cena, Romeu está transtornado, distraído, cheio de pressentimentos, estranho. E Mercuccio pergunta-lhe: “Visitou-te a Rainha Mab?” Romeu pergunta quem é a Rainha Mab e Mercuccio explica: “É a parteira das fadas, que viaja sempre puxada por parelha de pequeninos átomos, que pousam de través no nariz dos que dormitam. As longas pernas das aranhas servem-lhe de raios para as rodas; a capota é feita de asa de gafanhotos; os tirantes, das teias mais sutis; o colarzinho, de úmidos raios do luar prateado. O cabo do chicote é um pé de grilo; o próprio açoite, simples filamento. De cocheiro lhe serve um mosquitinho de casaco cinzento, que não chega nem à metade do pequeno bicho que costuma arredondar-se nos dedos das criadas preguiçosas…”

Ainda no folclore Shakespeare vai buscar toda a fundamentação do “Sonho de Uma Noite de Verão”, uma das suas mais deliciosas comédias. Na verdade, essa “noite” de verão não é qualquer noite. Como o próprio título em inglês indica (“Midsummer’s Night Dream”) é a noite do “meio do verão”, ou seja, a noite do solstício de verão, que no hemisfério norte corresponde a uma noite entre 20 e 23 de junho, que é a noite mais curta do ano. Segundo a cultura popular daquela região, é nessa noite que os seres do mundo mágico – fadas, elfos, duendes, e outros – confraternizam e se misturam com os humanos. É nessa noite, segundo o folclore, que os bruxos colhem ervas mágicas para suas poções, e rituais são realizados nas clareiras da mata, principalmente rituais de amor. Acredita-se ainda que tudo que for sonhado nessa noite acontecerá de verdade.

É então, nessa noite encantada, que se passa a quase totalidade da ação da peça, com a presença dos homens e mulheres que se misturam com Oberon, o Rei dos Elfos e Titânia, a Rainha das Fadas. Os casais enamorados, figuras centrais da trama, se amam, se desamam, brigam e se reconciliam, mostrando que o amor é feito de enganos, que precisam ser superados para que nasça o sentimento verdadeiro. Conduzindo e permeando toda a ação, um duende: Puck, algo assim como o nosso Saci Pererê, ladino, brincalhão, pregador de peças, sempre disposto a rir à custa dos outros.

É Puck, como pergunta a fada na Cena 1 do ato II, “… o canalha/ que espanta as moças e que o leite coalha,/ Mete-se no pilão e na moenda,/ Põe ranço na manteiga da fazenda,/ Acaba com o fermento e com o levedo,/ Ri de quem se perde e sente medo?/ Só quem o chama Puck, o bem amado,/É quem tem sorte e ainda é ajudado./ Não é você?” E ele próprio responde: “… Sou eu quem alegra as noites da floresta./ Meu trabalho é fazer rir Oberon; / Sei enganar cavalo só com o som/ De relincho de égua; e eu sei também / Me esconder em panela muito bem,/ E parecer uma maçã assada;/ E quando a cozinheira, esfomeada,/ Me leva à boca, eu faço ela babar./ A velha, que tristezas vai contar, / Pensa que eu sou um banco de madeira/ Eu escapo, ela bate com a traseira!/ É tanto grito que ela acaba tossindo;/ E todo mundo, então, começa rindo, / Com um riso muito forte de alegria,/ Achando que é a melhor hora do dia.”

Delicioso recurso esse usado talvez propositadamente para prender e segurar as inquietas platéias elizabetanas. Tão eficaz que nos prende até hoje, magnetizados por suas tragédias e comédias, muitas vezes sem entender o que é que nos atrai tanto na sua obra, qual é essa qualidade imponderável que a torna inalterada à passagem dos séculos, conservando o seu frescor e o seu brilho original.

Talvez o segredo esteja aí, nas ricas doses de cultura popular inseridas ao longo de todas as peças, ali encadeadas na trama de forma tão natural e lógica que parece não serem obra de uma ação deliberada. Parece que o poeta, enquanto se entregava à sua criação, abria um canal vivo da sua alma com a escrita. Da alma deste homem, o maior poeta da língua inglesa que, para espanto e escândalo de uma intelectualidade esnobe, não tinha formação universitária, é que brotaram estas obras primas, eternamente vivas, indiscutivelmente perenes. E o segredo dessa eternidade está aí, pois embora seja uma obra vasta e abrangente, como carvalho de abundantes frondes a espalhar seus galhos por um vasto território, tem suas raízes fincadas profundamente no rico solo da cultura e da alma popular.

 

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