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:: O início
Uma das coisas que eu mais gostava
no meu tempo de menina era de ouvir as histórias contadas sobre o
tempo em que Mamãe era jovem, era criança, e morava na fazenda. A
fazenda ora era a Broca, em Angelim, no Agreste de Pernambuco,
pertinho de Garanhuns, ora era Boqueirão, em Caraúbas, no Cariri
paraibano.
As histórias, as personagens,
excitavam minha curiosidade e me lembro de que queria muito saber
quem eram essas pessoas de quem Mamãe falava. Nas noites sem
televisão da minha infância, o mundo ia sendo explicado,
traduzido, decodificado: parentesco, costumes, tradições, rituais,
normas de estar no mundo, no mundo da cidade, em que eu morava, em
Campina Grande, na Paraíba, mas sob o código sertanejo-caririzeiro
de Mamãe, que tinha suas raízes profundamente plantadas no caldo
cultural daquelas regiões.
Na adolescência, lendo os livros
que havia em casa, e eram muitos, casualmente abri “Pedaços da
História da Paraíba”, de Cristino Pimentel (Campina Grande, 1953).
Folheando suas grossas páginas, um nome me chamou a atenção: Santa
Cruz. O livro referia-se ao Dr. Augusto Santa Cruz, um advogado, e
falava de uma briga desse homem com os poderosos da terra, sendo
ele próprio também um rico e poderoso fazendeiro.
Eu não entendi a história direito,
mas ele tinha o mesmo sobrenome que eu: Santa Cruz. Perguntei logo
a Mamãe se aquele homem era nosso parente. Ela respondeu que era
primo, primo da mãe dela. Então é parente meu também, pensei, e
fiquei me sentindo importante porque um parente meu tinha sua
história contada num livro. Mas a curiosidade continuava. Primo da
minha avó como? Se ele era primo da minha avó, devia ser filho de
um irmão ou irmã do meu bisavô. Mas como era mesmo o nome do meu
bisavô? Eu não sabia. Minha avó Inez , mãe de Mamãe, tinha mais de
dez filhos e eu sabia o nome de todos os meus tios e primos, que
eram muitos. Do lado de Papai havia menos gente, mas eu também
sabia o nome de todos. Mas dos antigos não.
Essa curiosidade ficou comigo ao
longo dos anos, mas a vida precisava seguir seu curso, e eu tinha
que estudar, trabalhar, dar aulas, criar os filhos, fazer teatro,
escrever, pesquisar, viver. As perguntas, porém, continuam,
latentes. Por que Santa Cruz? De onde vinha esse sobrenome? Qual o
parentesco que tínhamos com esse Augusto Santa Cruz? A ser real
esse parentesco, quem seria esse ancestral comum a mim e a esse
personagem, que eu conhecia apenas dos livros? Que tronco familiar
seria esse, do qual todos nós seríamos descendentes?
Então, uma vez, no final dos anos
1980, indo nas férias a Campina Grande – porque então eu já morava
em Natal – resolvi perguntar à minha tia Adiza, que morava com
meus pais em Campina Grande, sobre essas histórias. Coisas desse
tipo: como era o nome do meu bisavô? E da minha bisavó? Eles
vieram de onde? E a primeira coisa que minha tia disse me deixou
surpresa. Os pais da minha avó, Inez, que seria, segundo Mamãe,
prima de Augusto Santa Cruz, chamavam-se Teotônio Salgado de
Oliveira Vasconcelos e Antonia Evarista Duarte. Mas... e o Santa
Cruz? Onde estava? Vinha de onde? Se não vinha nem do pai nem da
mãe, como então aparecia no nome da minha avó, que era Inez Santa
Cruz Ferreira? Ferreira do meu avô, do marido dela, Pedro Quirino
Ferreira. Mas esse Santa Cruz, vinha de onde?
Tia Adiza explicou então que toda a
família era Santa Cruz, pelo sangue; mas alguns tinham o
sobrenome, outros não, como o bisavô Teotônio, avô dela, que, por
exemplo, não tinha. E foi a Teotônio que o Dr. Augusto Santa Cruz
pedira que voltasse a incorporar o sobrenome, com ele batizando
seus filhos. Isso porque com os acontecimentos de Alagoa do
Monteiro em 1912, dos quais falarei a seguir, os Santa Cruz
“estavam muito desprestigiados e era preciso ter mais gente usando
o sobrenome para fortalecer o clã”, nas palavras textuais de Dr.
Augusto para o seu primo, o meu bisavô Teotônio, e que tia Adiza
me repetiu.
Foi então que voltei ao livro de
Cristino Pimentel para reler a história da “Guerra de Doze” que eu
não havia compreendido na adolescência. Mas o que veio me lançar
mesmo nessa aventura de descoberta das minhas origens Santa Cruz
foi o espetacular livro de Pedro Nunes Filho “Guerreiro Togado:
fatos históricos de Alagoa do Monteiro” (Recife, Ed.
Universitária, 1997), que vim a conhecer em 1998.
A seguir, e baseada neste livro,
conto um resumo daqueles acontecimentos. |