Esse passado “heróico, bandeiroso e
cavalariano”, como gosta de dizer Ariano Suassuna, me deixou ainda
mais interessada na pesquisa das minhas origens. Paralelamente a
essas leituras, conversando com meu irmão
Pedro Quirino Ferreira Neto, ele me deu a idéia de fazer um
levantamento da descendência dos nossos avós paternos, o casal Pedro Quirino
Ferreira/Inez Santa Cruz Ferreira.
Sabíamos que minha avó havia tido
dez filhos, e que nossa mãe Cleuza fazia parte dessa prole, sendo
a sétima filha. A idéia era listar esses descendentes, porque
estávamos entrando na meia-idade e dali a pouco, com quatro ou
cinco gerações a partir desse casal original, havia já primos em
vários graus que sequer se conheciam ou sabiam uns dos outros.
Tudo isso coincidiu com a minha
aposentadoria como professora da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte em maio de 2002. Com tempo livre, comecei a me
dedicar mais a essa investigação e o ponto de partida foi o estudo
de documentos e velhos papéis deixados por Mamãe (que havia
falecido em 1997), que já os havia herdado de seus pais. Era uma
mixórdia de registros, certidões, declarações, contratos, recibos,
velhas cadernetas escritas a lápis, fotografias com dedicatória,
cartões de boas festas, cartões de falecimento e missas, e cartas.
Tudo misturado, sem ordem, e muitas coisas sem importância
misturadas com outras que continham informações valiosas.
Devagarinho, comecei a ordenar o
material, a reproduzir fotos e documentos, e a avisar aos parentes
do trabalho que fazia. Ao lado daqueles que não se envolveram com
a pesquisa e não demonstraram interesse, outros foram informantes
preciosos mas, a rigor, eu só dispunha mesmo da minha memória, da
memória de primos e outros parentes, e dos documentos.
Em agosto de 2005, fiz uma viagem
por algumas cidades da Paraíba e Pernambuco, convidada por uma
amiga que ia viajar a trabalho e precisava de companhia. O
roteiro, saindo de Natal, incluía as cidades pernambucanas de
Itapetim, Tuparetama, São José do Egito, Afogados da Ingazeira,
Sertânia, Arcoverde, Pesqueira, Belo Jardim, Garanhuns, Lagedo,
Palmares e Bonito.
Na maioria dessas cidades
pernambucanas havia ligações com o meu passado. Meu avô Pedro
Quirino Ferreira era natural de Sertânia (antiga Alagoa de Baixo),
cidade onde também morreu e foi sepultado, e onde também jazem os
restos do meu tio Gerson, seu filho. Em Palmares passei muitas
vezes as férias quando criança, e lá morava minha tia Geny Querino
Tavares, onde era vereadora, a primeira mulher a ser vereadora na
cidade. Em Lagedo, em criança íamos passar férias no sítio Tatu,
que pertencia aos “irmãos de criação” da minha mãe, Esperidião e
Quitéria. Garanhuns, Pesqueira, Arcoverde, eram cidades que faziam
parte das narrativas de infância, quando mamãe e minhas tias
recordavam as festas e passeios de quando eram jovens.
Assim foi que, em 2 de agosto de
2005, lá fomos nós, seguindo o roteiro, que incluía um dia em cada
um desses lugares, às vezes dois, quando a cidade era maior. Fui
então, vendo pela primeira vez, ou revendo em alguns lugares,
aquela terra de meus ancestrais. A imaginação começou a correr
solta. Em cada curva da estrada eu fantasiava estar vendo algo que
meus avós teriam visto. Em cada casa antiga escondida no meio do
arvoredo eu pensava ver uma fazenda daqueles tempos, onde algum
conhecido deles tivesse morado. Os nomes dos lugares provocavam
mais e mais recordações, e quando cheguei em Garanhuns, ao ver os
sobrenomes “Calado” e “Salgado” espalhados pela cidade, dando nome
a ruas e prédios, aparecendo em cartazes, comecei a sentir que
estava voltando para casa.
Em Lagedo, então, encontrei
finalmente um parente de verdade: José Alberto, neto de meu
tio-bisavô Azarias, irmão do meu bisavô Teotônio Salgado. O
encontro foi maravilhoso. José Alberto, um homem de uma conversa
agradabilíssima, entre muitas informações, disse-me que havia um
levantamento da árvore genealógica dos Salgado, que documentava
todas essas relações de parentesco, feito por alguém da família
Salgado. E encaminhou-me a um seu sobrinho, Antonio Alberto
Salgado, residente em Recife, também um aficcionado por essas
histórias.
Visitei Antônio Alberto na sua casa
no bairro da Piedade, ainda em agosto de 2005. Bisneto de Azarias,
ele me mostrou fotografias e foi a primeira pessoa que me falou
dos pais do meu bisavô Teotônio que, segundo ele, seriam Joaquim
Salgado de Vasconcelos e uma mulher de sobrenome Santa Cruz, ambos
naturais da cidade de Correntes, Pernambuco. Interessado na
descendência e nos ramos colaterais, Antonio Alberto afogou-me
numa montanha de nomes de filhos, netos, primos, tios e sobrinhos,
todos descendentes de Azarias Salgado. Falou-me da Broca, a
fazenda ancestral que pertenceu a Joaquim Salgado, depois a meu
avô Pedro Quirino Ferreira e foi palco da infância da minha mãe,
sendo personagem viva de todas aquelas histórias. Falou-me também
de irmãos da minha avó que ainda estariam vivos na cidade de
Angelim-PE. O curto espaço de duas horas que passei com ele, na
sua casa, numa tarde de sábado, foi o bastante para despertar
minha gulodice por essas histórias, essa investigação, essas
linhagens, esses parentescos. Saí de lá naquela tarde de 22 de
agosto de 2005 cheia de planos.
Ao lado disso, continuei em contato
com algumas primas, principalmente Daisy de Freitas Almeida, neta
da minha tia Adalgisa, irmã mais velha da minha mãe, residente em
Campina Grande; e Fátima Mignot, filha de tia Neusa, também irmã
de Mamãe, residente em Recife. As informações foram chegando, e eu
comecei a compor o quadro da descendência dos meus avós maternos.
A Internet foi fundamental nessa fase pois através do Orkut e do
MSN localizei primos e primas que eu não via nem ouvia falar há
mais de 30 anos. Descobri gente em Campo Grande-MS, Boa Vista-RR,
Rio de Janeiro-RJ, Brasília-DF, Sorocaba-SP, Cascavel-PR,
Teresina-PI, e mais um monte de lugares. Gente que eu já havia
esquecido voltou a criar rosto e voz. Falei com primos e com seus
filhos pelo MSN, por telefone, trocamos e-mails, cartas e cartões.
A maioria empolgou-se com a idéia. Desencavaram fotos, papéis,
documentos. E comecei a fazer assim: enquanto investigava a
ascendência, dedicava também um tempo à descendência.
Em novembro de 2006, fui finalmente
visitar os velhos tios-avós, que moravam na cidadezinha de
Angelim, no agreste pernambucano, a 30 km de Garanhuns, perto dos
limites de Alagoas. Encontrei-os aos dois, tio Siridião Salgado de
Vasconcelos e tia Marina Salgado de Vasconcelos. Ela, aos 84 anos,
já meio esquecidinha das coisas; ele ainda lúcido e trabalhando
aos 85 anos de idade (1). Além de toda a emoção de
encontrá-los, de saber que estava pisando no solo que os meus
antepassados desbravaram e habitaram há mais de cento e trinta
anos, tive em mãos uma cópia do levantamento genealógico feito por
uma parenta distante, relacionando toda a ascendência por quase
dez gerações, indo até Domingos Jorge Velho. Era o levantamento ao
qual José Alberto havia se referido em Lagedo.
O Tio Siridião me deu também o
contato de outra parenta, Maria do Carmo Salgado de Vasconcelos,
em Olinda-PE, que depois descobri ser filha da minha tia-avó
Josefa Duarte de Vasconcelos, casada com um primo, Esperidião
Salgado de Vasconcelos. Maria do Carmo me mostrou documentos,
fotos e o já conhecido levantamento, datilografado em sete folhas
de papel, cujas cópias parecem circular como um bem precioso entre
os membros da família.
Tive muita dificuldade para
compreender esse documento. Era a primeira vez que me via frente a
nomes que eu conhecia, que significavam algo para mim, mas que
pareciam estar errados, incorretos. Lá estavam o nome do meu
trisavô, Joaquim Salgado de Vasconcelos; o nome do meu bisavô,
Teotônio Salgado Oliveira Vasconcelos, da minha avó Inez Duarte de
Vasconcelos, e mais um monte de nomes de parentes, dos quais eu
tinha ouvido falar na infância, todos Salgado, Calado, Azevedo ou
Vasconcelos, mas uma coisa me deixava intrigada: não havia nenhum
Santa Cruz! Era a minha família, mas ao mesmo tempo não era!
Ninguém era Santa Cruz! Então, como esse nome teria chegado a mim,
através da minha mãe? Fui novamente olhar as certidões. Na
certidão de batismo da minha mãe estava lá:
(...) Aos trinta de janeiro de mil
novecentos e vinte e dois na Capela de Cochichola desta Freguezia
de São Joao do Cariry, batisei solemnemente a Cleusa, nascida no
primeiro de Novembro de mil novecentos e vinte e um, filha
legitima de Pedro Querino Ferreira e Ignez Ferreira Santa Cruz,
moradores nesta Freguezia. (...)(2)
[veja aqui cópia e transcrição da
certidão]
Então havia Santa Cruz! Minha avó
era Santa Cruz, e se não havia herdado o Santa Cruz do pai,
deveria ter herdado da mãe. Fui então consultar a certidão de
casamento da minha avó. Lá deveria ter o nome completo dos seus
pais. A surpresa foi maior ainda:
(...) Aos treis de Agosto de mil
novecentos e douze, nesta Povoação de Caraúbas do termo e comarca
de São João do Cariri, onde foi vindo o Juiz de Direito da comarca
Doutor José Gaudencio Correia de Queiroz comigo escrivao de seu
cargo abaixo declarado, presente as testimunhas Domingos de
Medeiros Ramos e Venancio Quirino Ferreira; receberão-se em
matrimonio Pedro Quirino Ferreira viuvo de idade de trinta anos,
filho legitimo de Quirino Eduardo Ferreira e dona Joaquina Maria
da Conceição, já falecidos, com dona Ignez Duarte Ferreira
solteira de idade de vinte anos, filha legitima de Teotonio
Salgado de Oliveira e dona Antonia de Vasconcelos, já falecida...
(...) (3)
[veja aqui cópia e transcrição da
certidão]
O Santa Cruz havia sumido
novamente! Parece que a minha avó, nascida com o nome de Inez
Duarte de Vasconcelos, tornada pelo casamento Inez Duarte
Ferreira, filha de Teotônio Salgado de Oliveira Vasconcelos e
Antonia Evarista Duarte, entre 1912 (ano do seu casamento) e 1921
(ano do nascimento da minha mãe) havia, sabe-se lá por qual
motivo, se tornado Inez Santa Cruz Ferreira, como se assinou a
vida toda, com o mesmo Santa Cruz que a maioria dos seus filhos
recebeu.
Isso me lançou numa terrível
confusão. Foi aí que me lembrei da história que tia Adiza havia me
contado, de que o Dr. Augusto Santa Cruz havia pedido aos parentes
para acrescentarem Santa Cruz ao próprio nome, para fortalecer o
clã, desprestigiado pelos revezes políticos que se seguiram à
Guerra de Doze. Aparentemente, apenas minha avó teria feito isso,
e transmitido o sobrenome aos filhos, não tendo acontecido o mesmo
com as suas irmãs e a prole delas, que continuaram Salgado de
Vasconcelos.
Aqui se colocava outra questão.
Segundo o levantamento que eu tinha em mãos, a esposa do meu
trisavô, Joaquim Salgado de Vasconcelos, era uma certa Josepha
Carolina de Azevedo. Então onde estaria esse ascendente com
sobrenome Santa Cruz? Eu já havia ouvido falar em muita gente com
esse sobrenome, havia muitos Santa Cruz em Recife e João Pessoa,
mas nunca tinha conseguido estabelecer minha real relação de
parentesco com nenhum deles. Era preciso encontrar esse ancestral
Santa Cruz. Esse, não: essa, porque segundo Antonio Alberto, o
primo Salgado que havia me soterrado com nomes, essa mulher era a
esposa de Joaquim Salgado de Vasconcelos, meu trisavô. Uma Santa
Cruz, cujo sobrenome havia sido perdido com o casamento. Mas isso
não conferia com o levantamento.
Esses
eram os pensamentos e deduções que me ocupavam no mês de novembro
de 2006, logo após a visita aos tios-avós em Angelim. Em Recife,
hospedada na casa da minha amiga Andréa Mota, à noite, enquanto
todos dormiam eu não conseguia sossegar, desejando resolver esse
mistério. Pensa daqui, pensa dali, levantei-me da cama e fui olhar
a estante que havia no quarto de hóspedes, procurando algo para
ler, para ver se distraía a cabeça do problema.
Um
livro me chamou a atenção: “Viçosa, cidade das Alagoas”. Gosto
muito de livros que contam a história de cidades, e minha estante
é cheia deles. Eu nunca tinha ouvido falar em Viçosa mas olhando a
capa, vi que o livro era de Elói Loureiro Brandão de Sá e lembrei
de que eu conhecia a filha dele, Maria Beatriz, que organizara o
lançamento de um livro meu em Maceió, em 1999.
Abri o livro e comecei a folheá-lo.
Muitas figuras, das ruas antigas da cidade, mostrando casas,
sobrados... Até que numa das fotos, que retratava a praça
principal em 1914, a legenda explicava: “... o sobradão de
Theotonio Santa Cruz, à direita...”(4). Theotonio! O mesmo
nome do meu bisavô! E era um Santa Cruz! Devorei o livro e vi
muitas informações sobre esse Theotonio, que teria chegado em
Viçosa por volta de 1860, vindo de Pernambuco. Corri ao mapa e
constatei: entre Correntes (cidade que davam como sendo a origem
da minha família) e Viçosa-AL, havia pouco mais de 40 quilômetros,
6 ou 7 léguas, como se costumava dizer naquele tempo. Podia ser
ele, esse Theotonio, o elo perdido, o tronco comum, o ancestral
que eu estava procurando. Ele podia ser irmão, tio, ou pai dessa
mulher Santa Cruz que estava na origem da minha família.
Descobri então, ao longo da
investigação que estou empreendendo, e da qual agora publico os
primeiros resultados, que Theotonio da Santa Cruz Oliveira era meu
tetravô; e que sua filha, Anna Francisca da Santa Cruz Oliveira,
casou-se com o viúvo Joaquim Salgado de Vasconcelos, sendo a
Josefa Carolina de Azevedo referida no levantamento que circula
entre os parentes a primeira esposa deste. Mas não cheguei tão
rapidamente a essas conclusões. Tudo isso demandou tempo,
energia, viagens, telefonemas e e-mails. Nesta fase, foi de
fundamental importância o contato com o primo Marco Antonio Leal
Calado, também tetraneto de Theotônio, que colocou à minha
disposição anotações de família, mais informações e muita, muita
boa-vontade.
Para poder realizar esta pesquisa,
comecei a estudar Genealogia, porque vi que, para dar
credibilidade aos meus achados era preciso trabalhar com método e
seriedade. Afinal, era a história de minha família, a minha
história, que iria ser contada. Entrei na Internet, comecei a
navegar pelos sites, e a ler coisas interessantes. Aprendi a
entender os conceitos. Assinei umas três listas de discussão sobre
temas genealógicos e fiquei conhecendo uma porção de gente, que
passava anos cascavilhando até descobrir o nome de uma bisavó, ou
de um tetravô desaparecido nas sombras do passado.
Surpreendentemente, comecei a achar essas pessoas muito parecidas
comigo.
Se inicialmente eu estava perdida
em denso nevoeiro, sem enxergar os caminhos à minha frente, e sem
sequer saber se existiam tais caminhos, a freqüência às listas de
discussão na Internet e o contato com outros estudiosos e
pesquisadores foi como se o sol se levantasse sobre a paisagem e
expulsasse a névoa, espantasse a bruma, lançando luz sobre os
campos e indicando os caminhos. A generosidade dessas pessoas,
listadas nos agradecimentos é que me permitiu construir este
trabalho.
Os capítulos que se seguem mostram
os resultados parciais - repito: parciais! - desta pesquisa. Estou
nessa atividade desde 2006, e sei que muitos dos dados
apresentados aqui estão incompletos e quem sabe até mesmo
incorretos. Uma minhas intenções, ao publicar esta primeira
versão, mesmo que em uma forma gráfica artesanal, é sensibilizar
os parentes a colaborar enviando informações que me permitam
completar o quadro.
Descobri na Genealogia uma
atividade absorvente, rica, complexa e muito interessante, e que é
praticada por pessoas de todas as idades e formações culturais. A
pesquisa das origens proporciona muitos prazeres e está ao alcance
da maioria das pessoas, sem muito custo. E fica sempre a sensação
de que, reconstruindo a história da nossa família, por pequena e
modesta que seja, estamos ajudando a reconstruir, sem nenhuma
dúvida, a história dessa grande família chamada Humanidade.
NOTAS
1. A tia-avó
Marina Salgado de Vasconcelos faleceu em novembro de 2007, um ano
depois desta visita.
2. Livro 19,
Folha 41, Freguesia de São João do Cariri.
3. Livro 4,
Folha 108, verso, Cartório de São João do Cariri.
4. SÁ, Elói
Loureiro Brandão. Viçosa, cidade das Alagoas. Maceió,
Grafitex Editora, 2001. p. 142.