Teatro grego hoje: para quê?

 

Neste mês de agosto/setembro de 2020 estou dando um curso on line de Teatro Grego, pelo projeto educativo da Casa da Ribeira. Além de ser algo que gosto de fazer – dar aula sobre meus temas preferidos – é uma forma de contribuir com a manutenção daquele teatro tão querido. “A Casa”, como a chamamos carinhosamente, vem resistindo com valentia durante todos esses anos, financiada por seus próprios projetos e pela bilheteria, atividades agora prejudicadas pelas medidas de isolamento.

Aí chega alguém e pergunta:

– Mas Clotilde! Teatro grego? Uma coisa tão antiga? Não está fora de moda? Não era melhor você dar um curso sobre alguma coisa mais moderna?

Pois é. O que podemos aprender hoje com o teatro grego? O que podem nos dizer essas peças e histórias escritas no Período Clássico da Grécia, que começa por volta do século VI aEC, há 25 séculos?

O mundo está atravessando um período difícil, a nível mundial. O nosso cotidiano tem sido marcado por uma espécie de volta ao obscurantismo, uma pobreza de ideias e de ideais, imediatismo, superficialidade, falta de perspectiva, de “deixa-rolar”, de “jeitinho brasileiro”, de “primeiro os meus”, de individualismo. Também presenciamos uma tendência à cegueira política, levando à uma necessidade de gurus ou de mestres salvadores.

No teatro grego, aprendemos que por, mais protagonistas que queiramos ser, temos sempre o coro e o corifeu, que representam a voz atenta da comunidade, do nosso coletivo, do grupo do qual, queiramos ou não, fazemos parte. Os mitos ali celebrados nos arremessam num universo simbólico muito mais rico do que esse no qual transitamos, com nossas mesquinhas rotinas diárias de café/almoço/jantar.

O importante dessas obras, e o que as torna clássicas, é que elas atravessaram 25 séculos dialogando com as realidades de cada época, levantando questões, trazendo prazer e encantamento, sendo estudadas, esmiuçadas, problematizadas. Repercutem na nossa vida, na nossa sociedade, na nossa forma de pensar, esclarecem o nosso cotidiano, estejamos ou não conscientes disso.

Quando falamos em ”voto de Minerva”, “cavalo de Troia”, “presente de grego”, “complexo de Édipo”, “calcanhar de Aquiles”, “canto das sereias”, ecoamos nas nossas palavras histórias que atravessaram séculos.

Estamos hoje sitiados pela “peste”, como ocorreu na Tebas da peça “Édipo Rei”, de Sófocles. Com ela aprendemos que, para alcançar a felicidade, não é bastante decifrar o enigma da monstruosa esfinge que ameaça a população, mas mergulhar no passado profundo, onde a sombra dos erros já cometidos paira sobre a desditosa cidade.

Na peça “As Eumênides”, de Ésquilo, vemos o caso de Orestes, acusado pelo assassinato da sua mãe Clitemnestra, crime terrível, e que na antiga ordem dos “guénos” ligados por laços de sangue levava simplesmente à morte do criminoso. Presenciamos então o surgimento de uma nova ordem, através da constituição do tribunal do Areópago, presidido por Atena, gerado pelas necessidades da “pólis”, novo sistema de organização social, baseado na razão, na lei escrita e no direito do Estado. O Areópago encontra argumentos diferentes para absolver o criminoso – e nos faz ver que nada é natural, que tudo é historicamente determinado e construído, que aquilo que vale hoje pode não valer amanhã, que nada está dado, que tudo pode ser mudado.

Como não se emocionar com “Antígona”, na peça de Sófocles, sentenciada à morte por defender diante do governante o direito de enterrar o irmão morto, acusado de traição e por isso mesmo condenado a ser entregue aos cães e às aves de rapina, sem direito às cerimônias fúnebres, porque as razões de Estado se sobrepõem à piedade individual? Penso na mãe que peregrina pelos IMLs da vida, procurando o corpo do filho baleado nas comunidades, um ser humano reduzido pelo Estado a um alvo e depois a um número de identificação.

Em “As Suplicantes”, de Ésquilo, também são mães e esposas pedindo de volta os cadáveres dos seus guerreiros mortos em batalha.  Imediatamente lembro das cenas que vi na TV, mostrando os cadáveres enfileirados no solo dos cemitérios, abatidos também na guerra que mistura a inescapável vulnerabilidade biológica com a nefanda praga do desvio de verbas e da rapina administrativa. São corpos entregues às famílias de qualquer jeito, sem honra, sem rito, sem velório, enterrados às pressas na terra seca, pois não há tempo para umedecê-la com o choro necessário.

E quando Odisseu, descrito por Sófocles em “Ájax”, compadece-se do guerreiro morto, seu inimigo, e é criticado por Agamenon pelo sentimento responde-lhe: “Quando era lícito odiá-lo, eu o odiei.” O autor nos mostra que o ódio, tão terrível mas tão humano, também tem seus limites, e que ultrapassá-los é abrir mão da própria humanidade.

Tudo tão real, tudo tão parecido com a gente. Tão didático. É como se acabássemos de ligar a TV. Mais contemporâneo, impossível.

Finalmente, nos resta a esperança nas mulheres, nas sacerdotisas de Dioniso, n’As Bacantes descritas por Eurípides. Em louvor ao deus, e cansadas da opressão da razão apolínea, literalmente dilaceram o rei Penteu, um ser ridículo, descrente, intrometido, cuja boca só tem insultos, que se refere aos mistérios que não entende com desprezo e chacota. As Bacantes representam as forças criativas e renovadoras da sociedade, e haverão de chegar, resgatando o entusiasmo e a energia da alegria pura e criadora, divina e profana, antiga e sempre renovada.

Uma opinião sobre “Teatro grego hoje: para quê?

  • 30 de agosto de 2020 em 00:47
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    Ótimas reflexões Clotilde! Tem uma frase muito conhecida, mas que fala algo bem real: “A beleza está no olhos de quem vê.” Que bom viver essa experiência de me encantar com o teatro a partir do seu olhar e de conhecer os mitos, deuses, peças e a história dos primórdios da civilização ocidental! Gratidão!

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