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Como escolher um texto para encenar na escola?

Durante toda a minha experiência como professora de teatro sempre fui procurada por alunos ou ex-alunos que, atuando como professores na rede pública ou particular de ensino, me pediam sugestões sobre que texto deveriam montar nas escolas, principalmente quando o diretor pedia claramente um texto sobre “drogas” ou sobre “gravidez na adolescência”, por exemplo. Uma pergunta precede essa discussão da escolha do texto:

– O que quero dizer com o teatro, com esta arte que pratico?

Os motivos que levam uma pessoa a ser professor de teatro são diferentes daqueles que levaram outra pessoa a ser professor de matemática, por exemplo.

Mesmo aqueles que são professores de teatro “por acaso”, ou seja, porque o curso tinha mais vagas, ou porque terminou sendo a única opção, e nunca pararam para pensar nisso, durante o curso devem ter aprendido que a arte é um processo de comunicação, e é preciso obviamente ter algo a comunicar.

Então a pergunta que devemos estar diariamente nos fazendo é “o que quero dizer ao mundo?” como professor, como professor de arte, como artista, como cidadão e como ser humano.

Quais são os meus valores? Em que acredito? Por que estou metido no mundo do teatro? São perguntas que todo praticante da arte teatral precisa estar constantemente fazendo a si mesmo. E ao longo desta exposição expresso também meu pensamento sobre a arte teatral e sua função enquanto prática artística e estética, sobre a forma como eu a vejo, entendo e pratico, obviamente respeitando aqueles que a vêem, entendem e praticam de outra forma.

É preciso ter em mente que, da mesma forma que há muitos tipos de pessoas, diferentes umas das outras, e inseridas em contextos sociais diferentes, há muitos tipos de teatro. O teatro enquanto arte quase pura, de pesquisa da linguagem, onde brilham nomes como Peter Brook e Eugenio Barba, Antunes, Zé Celso, passando pelas comédias ligeiras com atores globais, os espetáculos para crianças sempre em cartaz nos teatros das cidades, os grupos universitários que pesquisam e criam tendências, os megaespetáculos como autos e celebrações comemorativas que agora estão disseminados por todas as cidades, até as representações dos pequenos circos do interior e o mamulengo, tão vivo nas mãos e falas dos nossos artistas populares.

Tudo isso é teatro, e cada um deles tem seu público, e cada um deles está inscrito em uma posição ao longo da extensa linha que liga a Arte e o Entretenimento, uns com mais arte, outros com mais entretenimento, mas todos igualmente válidos e possíveis.

Eu sempre trabalho mais na direção da Arte do que do entretenimento, mas nada me impede de trabalhar nesta última direção. Isso é bom, porque experimento de tudo e enriqueço minha prática.

Mas vamos voltar ao nosso tema principal, que é esse teatro que o diretor encomenda na escola ao professor de arte. Quero relatar três casos reais.

O primeiro: o padre, diretor de um colégio católico, chama o professor de teatro para fazer “uma peça” sobre gravidez na adolescência, mas recomenda expressamente que a questão sexual não deve de jeito nenhum ser abordada de forma explícita.

O segundo: assistentes sociais escrevem e dirigem uma peça sobre alcoolismo no serviço de prevenção de um grande hospital. Na peça, o personagem chega bêbado às três horas da manhã, e esbraveja contra a esposa, quebrando as coisas dentro de casa; uma vizinha é assistente social, entra na casa do casal às três da manhã, e faz uma preleção sobre as consequências do abuso do álcool, enquanto os outros personagens – o alcoólatra e a esposa – escutam, atentos.

O terceiro: uma peça, representada por crianças, apresentada num festival escolar. As crianças, no papel de árvores, são derrubadas sumariamente por outra criança, no papel de machado. Uma das árvores se adianta para os proscênio e diz: “Vamos salvar a natureza!” As outras árvores dizem: “Vamos!”, e partem para cima do “machado” e o expulsam do palco. Depois, juntos, cantam uma canção.

Tudo isso é uma pequena amostra do que tem sido feito por aí em nome do teatro nas escolas ou nas instituições.

Peço que façam comigo uma pequena reflexão sobre esse tipo de peça que traz uma “mensagem”. Essas peças procuram responder a uma questão, que é “como podemos curar/evitar/prevenir/eliminar as drogas/alcoolismo/gravidez/na-adolescência/abuso-infantil/destruição-da-natureza/efeito-estufa?

Essas peças geralmente mostram uma situação que enfoca o problema e levam o espectador a assumir uma atitude benevolente diante do problema, dizendo consigo mesmo: “Se eu estivesse nessa situação que estou vendo no palco, eu faria a escolha correta!” e quando há no palco o triunfo ou o fracasso do protagonista, o espectador diz, em tom superior: “Eu sabia que ele ia terminar assim!”

Na minha maneira de ver, essas peças, conduzidas desta forma são, em última análise, um processo de infantilização e manipulação do público. O autor/diretor se sente moralmente superior à plateia e – muito mais grave – permite que a plateia assuma uma superioridade moral para com as pessoas na peça que não aceitam os pontos de vista ali colocados como corretos.

Tal atitude afasta da atividade exatamente os alunos que estariam, digamos assim, em situação de risco, que seriam os alvos da ação educativa. Imagine comigo que você é um garoto de 13 anos, sedento de experiências, curioso de sexo e drogas. Obviamente não vai lhe interessar qualquer atividade que diga que você não pode ou não deve ter essas experiências.

As peças de mensagem, nesta análise, não atingem, por isso, os seus objetivos, pois contêm julgamentos e explicações, e quando você explica, ou julga, não está fazendo teatro. Está fazendo política, praticando a moral, ou divulgando a ciência. Mas não está fazendo teatro. Teatro é Arte, e Arte é feita de alegorias, simbologias, metáforas. Sem isso, é discurso, é proselitismo e – pior de tudo – é chato.

Essas peças são empobrecedoras do espírito, porque não dão opção à plateia. Nada resta ao público a não ser concordar com o castigo ou com a redenção do protagonista, contrariando um dos pressupostos básicos do teatro que é atingir a consciência, FAZENDO PENSAR.

Então, o que fazer para combater as drogas, a violência, a gravidez na adolescência, a destruição da natureza e todas essas questões que são importantes, que permeiam nosso cotidiano e a respeito das quais é fundamental que os jovens fiquem atentos?

Há muitas coisas que podem ser feitas, sem precisar envolver o teatro nisso. Vou citar algumas que me ocorreram aqui rapidamente, mas vocês provavelmente conseguirão imaginar muitas outras. Levem os meninos ao hospital psiquiátrico e à prisão, para que eles vejam onde vão parar os que se drogam. Levem-nos aos programas de apoio às mães adolescentes que há em toda a cidade, e deixem que eles escutem os depoimentos dessas mães e pais de 14 anos de idade. Levem-nos ao Pronto Socorro, para que vejam as vítimas da violência, gritando de dor, ou mortas na guerra das cidades.

E não precisam dizer nada, pois o que esses jovens vão ver, de verdade, na frente deles, é mais contundente do que qualquer peça de teatro. E ensinem aos meninos caridade e compaixão com os que sofrem e se drogam, e cometem crimes, porque eles também são humanos e não cabe a nenhum de nós julgá-los nem sentir-se superior a eles.

E o teatro? Se optarmos por não realizar a tal “peça de mensagem”, o que vamos montar com nossos alunos?

Na escola, vamos nos juntar e explorar com eles a grande aventura do espírito humano, os mistérios, os problemas da alma! Vamos esquecer as calamidades do cotidiano e vamos nos reunir em torno do amor, da paixão, da ambição, da amizade, do sacrifício, da fantasia – e da morte também pois ela faz parte da vida!

Eu acredito que o caminho para atingir o coração dos homens é confrontá-los com a sua própria humanidade, mas de forma poética, respeitosa e amorosa. É preciso trazer à tona o mistério, mas sem desvendá-lo. E o espectador tem que levar o mistério consigo e ir desvendando-o na sequência. Em vez do dedo em riste, em vez da lição de moral, da sentença educativa, da frase edificante, é melhor e mais honesto contar uma história…

– Mas eu não vou lidar com homens, dirá você, jovem professor de teatro, ou o diretor preocupado de uma escola da periferia. São apenas crianças, adolescentes, carentes, em situação de risco.

E eu lhe respondo:

– Não, não, não! São homens e mulheres, sim! Cidadãos como eu e você, seres humanos em toda a sua plenitude. Tratá-los de outra forma é infantilizá-los, manipulá-los, considerá-los seres inferiores, privados da capacidade de entender as coisas, como bem pouco tempo atrás se fazia com as mulheres!

Com esses homens e mulheres em formação, vamos fazer o melhor que podemos fazer com o teatro. Os clássicos, as histórias eternas da humanidade, e a memória cultural da nossa região.

Vamos montar Shakespeare, por que não? Não o texto integral, mas os enredos, as histórias: a história do amor proibido de Romeu e Julieta, da ambição de Macbeth, do sofrimento existencial de Hamlet, das incertezas do amor em Sonho de Uma Noite de Verão, e da esperteza em O mercador de Veneza, do ciúme de Otelo. Essas histórias são eternas e seus protagonistas não são reis ou príncipes, mas homens e mulheres iguais a qualquer um de nós.

Vamos montar outros clássicos, como suas histórias imortais: a avareza e cobiça, em O avarento e a hipocrisia, em O tartufo, de Moliére; a corrupção n’O Inspetor geral, de Gogol, a incapacidade do homem em fugir ao seu destino no Édipo Rei, de Sófocles, a incomunicabilidade entre as pessoas n’A Cantora Careca, de Ionesco. Vamos montar Brecht, cujo teatro intensamente poético abre espaço para a reflexão e a discussão através do mecanismo do distanciamento.

Vamos montar autores brasileiros, como Martins Pena, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Dias Gomes, Millor Fernandes.

Vamos montar os autores nordestinos: Ariano Suassuna, Paulo Pontes, Altimar Pimentel, Braulio Tavares, Lourdes Ramalho, Racine Santos.

E se nada disso bastar, ou for suficiente, temos ainda o universo inesgotável do romanceiro popular nordestino, dos folhetos da literatura de cordel, com suas histórias imorredouras; O Pavão Misterioso, O Cachorro dos Mortos, A Louca do Jardim, Juvenal e o Dragão, ou A História do Marido que Trocou a Mulher por uma Televisão a Cores.

O que funciona como prevenção à droga, à violência, ao abuso, na escola, é o teatro não na sua temática, mas na função agregadora e coletiva do fazer teatral propriamente dito, dando noção de objetivo, organização do tempo, horários, disciplina, sentido de grupo, de construção coletiva, elevação da autoestima, liberação da fantasia. Tudo isso que o teatro proporciona deve ser mais vantajoso para o jovem do que a lição de moral proposta pela peça de mensagem.

O teatro, minha gente, na escola, ou seja onde for, não é para ensinar nada a ninguém. O teatro é para levantar o véu que separa o visível do invisível que há em todos nós. O teatro é para fazer sonhar, instigar, emocionar, comover, fazer com que nos aproximemos, cada um, da nossa própria humanidade.

 

Clotilde Tavares

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Este artigo foi escrito em 2008 e publicado no blog Teatro Vivo <http://teatrovivo.wordpress.com>